NATAL_2020
Quem é o nosso menino Jesus?
Encontro de Natal, sábado 19.Dezembro, 2020, 18:00
Poemas, canções, cânticos, celebração do dia e intervenções dos participantes.Equipa de Preparação: Manuel António, Manuela Sousa, Dina Rego,Ana Maria Gonçalves, Manuela Peleteiro, Catarina Castel-Branco e António José Paulino
..........[Carlos Ferreira]Propostas recebidas para integrarem o Encontro:
Naquele presépio com quem nos identificamos mais?
Com José com Maria,com os pastores, com os Reis Magos.
Seríamos capazes de ter acolhido na nossa casa aquele casal que precisava dar à luz o Menino? Quem acolhemos em nossa casa? E na nossa vida? E no nosso coração?
..........[José Rosa e Isabel Osório]
Um conto de Natal – Miguel Torga, in Novos Contos da Montanha, com uma introdução pela Isabel Osório.

De sacola e bordão, o velho Garrinchas fazia os possíveis para se aproximar da terra. A necessidade levara-o longe demais. Pedir é um triste ofício, e pedir em Lourosa, pior. Ninguém dá nada. Tenha paciência, Deus o favoreça, hoje não pode ser – e beba um desgraçado água dos ribeiros e coma pedras! Por isso, que remédio senão alargar os horizontes, e estender a mão à caridade de gente desconhecida, que ao menos se envergonhasse de negar uma côdea a um homem a meio do padre-nosso. Sim, rezava quando batia a qualquer porta. Gostavam… Lá se tinha fé na oração, isso era outra conversa. As boas acções é que nos salvam. Não se entra no céu com ladainhas, tirassem daí o sentido. A coisa fia mais fino! Mas, enfim… Segue-se que só dando ao canelo por muito largo conseguia viver. E ali vinha demais uma dessas romarias, bem escusadas se o mundo fosse de outra maneira. Muito embora trouxesse dez réis no bolso e o bornal cheio, o certo é que já lhe custava arrastar as pernas. Derreadinho! Podia, realmente, ter ficado em Loivos. Dormia, e no dia seguinte, de manhãzinha, punha-se a caminho. Mas quê! Metera-se-lhe na cabeça consoar à manjedoira nativa… E a verdade é que nem casa nem família o esperavam. Todo o calor possível seria o do forno do povo, permanentemente escancarado à pobreza.
Em todo o caso sempre era passar a noite santa debaixo de telhas conhecidas, na modorra de um borralho de estevas e giestas familiares, a respirar o perfume a pão fresco da última cozedura… Essa regalia ao menos dava-a Lourosa aos desamparados. Encher-lhes a barriga, não. Agora albergar o corpo e matar o sono naquele santuário colectivo da fome, podiam. O problema estava em chegar lá. O raio da serra nunca mais acabava, e sentia-se cansado. Setenta e cinco anos, parecendo que não, é um grande carrego. Ainda por cima atrasara-se na jornada em Feitais. Dera uma volta ao lugarejo, as bichas pegaram, a coisa começou a render, e esqueceu-se das horas. Quando foi a dar conta passava das quatro. E, como anoitecia cedo não havia outro remédio senão ir agora a mata-cavalos, a correr contra o tempo e contra a idade, com o coração a refilar. Aflito, batia-lhe na taipa do peito, a pedir misericórdia. Tivesse paciência. O remédio era andar para diante. E o pior de tudo é que começava a nevar! Pela amostra, parecía coisa ligeira. Mas vamos ao caso que pegasse a valer?
Bem, um pobre já está acostumado a quantas tropelías a sorte quer. Ele então, se fosse a queixar-se! Cada desconsideração do destino! Valia-lhe o bom feitio. Viesse o que viesse, recebia tudo com a mesma cara. Aborrecer-se para quê?! Não lucrava nada! Chamavam-lhe filósofo… Areias, queriam dizer. Importava-se lá. E caía, o algodão em rama! Caía, sim senhor! Bonito! Felizmente que a Senhora dos Prazeres ficava perto. Se a brincadeira continuasse, olha, dormia no cabido!
Entrou no alpendre, encostou o pau à parede, arreou o alforge, sacudiu-se, e só então reparou que a porta da capela estava apenas encostada. Ou fora esquecimento, ou alguma alma pecadora forçara a fechadura. Vá lá! Do mal o menos. Em caso de necessidade, podia entrar e abrigar-se dentro. Assunto a resolver na ocasião devida… Para já, a fogueira que ia fazer tinha de ser cá fora. O diabo era arranjar lenha. Saiu, apanhou um braçado de urgueiras, voltou, e tentou acendêlas. Mas estavam verdes e húmidas, e o lume, depois de um clarão animador, apagou-se. Recomeçou três vezes, e três vezes o mesmo insucesso. Mau! Gastar os fósforos todos é que não. Num começo de angústia, porque o ar da montanha tolhia e começava a escurecer, lembrou-se de ir à sacristia ver se encontrava um bocado de papel. Descobriu, realmente, um jornal a forrar um gavetão, e já mais sossegado, e também agradecido ao céu por aquela ajuda, olhou o altar. Quase invisível na penumbra, com o divino filho ao colo, a Mãe de Deus parecia sorrir-lhe. Boas festas! – desejou-lhe então, a sorrir também. Contente daquela palavra que lhe saíra da boca sem saber como, voltou-se e deu com o andor da procissão arrumado a um canto. E teve outra ideia. Era um abuso, evidentemente, mas paciência. Lá morrer de frio, isso vírgula! Ia escavacar o ar canho. Olarila! Na altura da romaria que arranjassem um novo. Daí a pouco, envolvido pela negrura da noite, o coberto, não desfazendo, desafiava qualquer lareira afortunada. A madeira seca do palanquim ardia que regalava; só de cheirar o naco de presunto que recebera em Carvas crescia água na boca; que mais faltava? Enxuto e quente, o Garrinchas dispôs-se então a cear. Tirou a navalha do bolso, cortou um pedaço de broa e uma fatia de febra e sentou-se. Mas antes da primeira bocada a alma deu-lhe um rebate e, por descargo de consciência, ergueu-se e chegou-se à entrada da capela. O clarão do lume batia em cheio na talha dourada e enchia depois a casa toda. É servida? A Santa pareceu sorrir-lhe outra vez, e o menino também.
E o Garrinchas, diante daquele acolhimento cada vez mais cordial, não esteve com meias medidas: entrou, dirigiu-se ao altar, pegou na imagem e trouxe-a para junto da fogueira. – Consoamos aqui os três – disse, com a pureza e a ironia de um patriarca. – A Senhora faz de quem é; o pequeno a mesma coisa; e eu, embora indigno, faço de S. José.
Miguel Torga
...........................
Na voz da atriz Paula Seabra, Garrinchas, o homem que rezava sem fé para que "ao menos se envergonhasse de negar uma côdea a um homem a meio do padre-nosso", salta das palavras de Miguel Torga para, embora indigno, fazer de S. José.
…………
“Natal”, de Miguel Torga, lido pelo próprio, rádio TSF de 17 de janeiro de 1995, dia do falecimento do escritor.
............ [Isabel Osório]
AMIGOS PARA SEMPRE, Milton Nascimento
Canção da Cidade Nova, Francisco Fanhais
..............[Manuela Peleteiro]
RECOMEÇAR
Não nos deixes acomodar ao saber daquilo que foi: dá-nos
largueza de coração para abraçar aquilo que é. Afasta-nos do repetido, do juízo
mecânico que banaliza a história, pois a priva de surpresa e de esperança.
Torna-nos atónitos como os seres que florescem. Torna-nos inacabados como quem
deseja. Torna-nos atentos como quem cuida. Torna-nos confiantes como os que se
atrevem a olhar tudo, e a si mesmos, de novo pela primeira vez.
José Tolentino Mendonça
O DIA QUE COMEÇA
Senhor, faz que tenhamos em cada dia a capacidade de passar
da mera evocação dos símbolos à pura concretude do real, verdadeiramente
atentos à gestação do mundo e comprometidos em descrevê-la.
Que saibamos apreciar a imediatez flagrante em que a vida se
dá, mas também as suas camadas profundas, escondidas, quase geológicas. Que no
instante e na duração saibamos escutar, hoje e sempre, o vivo, o desperto, o
fremente e o seu espantoso trabalho.
Recebemos a aurora e o verde azulado dos bosques. Recebemos
o silêncio intacto dos espaços. Recebemos a música do vento.
Mas recebemos igualmente a marcha da história. O fragmentado
desenho sonoro da nossa conversa humana. Esta espécie de parto interminável
que, entre dor e esperança, torna semelhantes todos os locatários da terra. A
nossa dança e o nosso combate. A nossa canção de semeadores mais que de
ceifeiros. Sejam os nossos quotidianos gestos mergulhados na vivacidade da
troca, abertos ao que de todos os pontos da humanidade e do mundo convergem.
Reconhece como nosso o assobio dos caminhantes que, ao
amanhecer de cada jornada, tornam a partir ao teu encontro.
E a nossa oração de hoje se alongue confiante como uma
sintonia buscada com o Espírito, entre a leveza do dom e a aspereza do combate.
"Enganam-se os que pensam que só nascemos uma vez. Para quem quiser ver a vida está cheia de nascimentos. Nascemos muitas vezes ao longo da infância quando os olhos se abrem em espanto e alegria. Nascemos nas viagens sem mapa que a juventude arrisca. Nascemos na sementeira da vida adulta, entre invernos e primaveras maturando a misteriosa transformação que coloca na haste a flor e dentro da flor o perfume do fruto.
Nascemos muitas vezes naquela idade onde os trabalhos não cessam, mas reconciliam-se com laços interiores e caminhos adiados. Enganam-se os que pensam que só nascemos uma vez. Nascemos quando nos descobrimos amados e capazes de amar. Nascemos no entusiasmo do riso e na noite de algumas lágrimas. Nascemos na prece e no dom. Nascemos no perdão e no confronto. Nascemos em silêncio ou iluminados por uma palavra. Nascemos na tarefa e na partilha. Nascemos nos gestos ou para lá dos gestos. Nascemos dentro de nós e no coração de Deus.
NATAL
(1988)
Menino Jesus feliz
Que não cresceste
Nestes oitenta anos!
Que não tiveste
Os desenganos
Que eu tive
De ser homem,
E continuas criança
Nos meus versos
De saudade
Do presépio
Em que também nasci,
E onde me vejo sempre igual a ti
Miguel Torga
...........[João Pedro Afonso]
............[Filipa Borrego]
Sugiro que se peça aos participantes para que tenham, visível, durante o Encontro, um presépio.............[António Cardoso Ferreira]
uma estória de Natal
Hoje descobri
que Deus habita
luminosamente
nos olhos de todas as crianças
do Universo
e apetece-me partir
lançando aos quatro ventos
a descoberta que fiz
e apetece-me pedir
que toda a gente
cuide dos olhos das crianças
com delicadeza
lavando-os na transparência
com água de fontes verdadeiras
e alegrando-os
com a carícia de um sorriso
nascido na ternura do nosso olhar
de empurrar Deus para um céu distante
e sentá-lo por toda a eternidade
no trono de saber e poder tudo
imaginando-o como um juiz
severo e implacável...
que Deus prefere viver
nos olhos de todas as crianças
desafiando-nos
a olhar a vida
com a mesma luz
que descobrimos nelas.
Dezembro de 2020
António Cardoso Ferreira
ROSA DE SOL
Por quem devo sabero modo como a rosa
é o tempo de si mesma
pelos olhos repartida?
A quem devo dizer
que a mística rosa
transmite à língua
os atributos do sol?
J. Alberto de Oliveira
Evangelho segundo São Lucas 1,26-38.
a uma Virgem desposada com um homem chamado José, que era descendente de David. O nome da Virgem era Maria.
Tendo entrado onde ela estava, disse o anjo: «Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo».
Ela ficou perturbada com estas palavras e pensava que saudação seria aquela.
Disse-lhe o anjo: «Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus.
Conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus.
Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David;
reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim».
Maria disse ao anjo: «Como será isto, se eu não conheço homem?».
O anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus.
E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice e este é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril;
porque a Deus nada é impossível».
Maria disse então: «Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra».
nos caminhos do tempo
e disseste à nossa vida que a esperança se cumpre
atravessando a noite sem bagagens
como os Magos à procura
do presépio,
assim caminhamos para ti;
que nos guie a estrela
para a prática das mãos, dos olhos e da esperança
e nos revele os perigos tortuosos;
que nos transporte a quadriga da justiça e da fortaleza
e que João Batista, estrela d'alva antes do dia que nasce,
nos indique o roteiro do teu Nome e do teu rosto
dá-nos também a
companhia de Maria
que nos ajude a descortinar
as janelas do deserto e da alegria
santifica-nos, Deus,
pelo fogo da tua consolação
e pelo fogo que acendeste entre todos nós aqui reunidos
na memória da tua Páscoa,
Deus do nosso berço e do nosso túmulo,
que vens no Pai, no Filho e no Espírito Santo
José Augusto Mourão
O nome e a forma, ed. Pedra AngularDeus que vens de Deus,
(…)
que a nossa vida te
reconheça
pela maneira como por ti
se vê reconhecida
na teia do que passa e
permanece,
tu que és aquele que
há-de vir,
e Deus connosco
Para dizer junto à manjedoura
Que teus olhos, Menino,
ensinem largueza
e altura aos meus olhos
Que teus olhos curem os
meus
da fadiga e dos seus filtros
Que teus olhos
desimpeçam a visão
fragmentária, parcial e indecisa
Que teus olhos devolvam
aos meus olhos
o vento azul da viagem e a sua alegria
Devolvam o real como anel aberto
em vez dos círculos obsidiantes e fechados
Devolvam o aberto como imagem
e programa
Que teus olhos, Menino,
ensinem aos meus
o seu natal
José Tolentino Mendonça
Presépio
que um arcanjo ilumine o
nosso caminho
ao menos uma vez!
que o arcanjo que velava à cabeceira da Criança
nos ensine a força da fraqueza,
a doçura irresistível dos não violentos,
a lei do perdão
que a Criança nos ensine
que o amor de adoração é sempre partilhado,
comunicativo
que o arcanjo ilumine o
que nos faz
sempre partir: um rosto, a sede de justiça, o choro
ou a fome, a cegueira dos olhos
ou do coração,
Deus que nos moves para a adoração
e o louvor neste fim de tarde
e que alumias o mundo
José A. Mourão, ‘O Nome e a Forma’, Lisboa 2009
Natal... Na província neva.
Natal... Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.
Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
Estou só e sonho saudade.
E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!
..............[Isabel Duarte]
Primeira Semana do Advento 2020
Aqui em Bonnevaux – no Hemisfério Norte – o Advento começa no Outono. O
Natal chega no morto e escuro Inverno, quando o Sol, embora
impercetivelmente, renasce no Solstício. A roda gira de novo. O fim do Ano
Litúrgico cristão – e como todos os fins, ele é também um início – acontece
quando a maioria das árvores está silenciosamente a perder a sua glória, a
deixar cair a suas folhas. Elas caem uma a uma, como se fossem estrelas
cadentes ou almas moribundas. A mágica palete do Outono vai-se esbatendo em silhuetas
escuras de árvores nuas com o contorno desenhado contra o céu: a arte da
natureza no seu estilo mais minimalista. No solo, as folhas estão por todo o
lado, sopradas e espalhadas pelo vento ou decompondo-se lentamente no que resta
do calor do sol. Os gatos adoram encaracolar-se nelas.
Então acontece o que há de menos contemplativo em tudo isto:
Jean-Christophe chega com o seu soprador mecânico de folhas. Fazendo um
horrendo barulho (mas poupando imenso tempo e esforço), sopra-as em padrões
geométricos sobre a erva, de modo a poder juntá-las mais facilmente para as
deitar fora. Pensei nisto quando li a primeira leitura da missa de hoje:
Todos
nós murchámos como folhas
e os
nossos pecados sopraram-nos para longe como o vento.
A
leitura de Isaías pode soar excessivamente negativa a um ouvido não treinado,
cheia de corações transviados e endurecidos, de ira divina, de rebelião e
sujidade. Porém, não lemos a Escritura meramente para sermos consolados, mas
para permitir que a lâmina da Palavra de Deus abra um sulco por entre os nossos
jogos mentais e arrogância. E para nos fazer um diagnóstico. A Palavra de Deus
lê-nos mesmo que pensemos, no nosso orgulho, que somos só nós que estamos a
ler. Se conseguirmos sentir isto, lendo porque somos lidos,
conhecendo porque somos conhecidos, que alívio! Faz-nos sentir
melhor simplesmente receber um diagnóstico correto, em que possamos confiar e
que dê sentido a todos os sintomas que estamos a sentir.
Se conseguirmos sentir profundamente esta interação com a Palavra, iremos
lê-la com melhor entendimento e seremos mais iluminados por ela. É também mais fácil interpretá-la – por
exemplo, ver a “ira de Deus” simbólicamente. Deus não pode estar “irado”.
Mas o karma, as consequências inevitáveis das nossas próprias más ações podem
realmente parecer-se com a ira de alguém dirigida pessoalmente contra nós. A
crise ecológica, por exemplo, é o resultado do pecado coletivo – “castigo”
impessoal pela ganância e pela dessacralização da natureza.
Ler a Escritura desta maneira, por vezes
significa que temos que inverter os papéis descritos no texto: por exemplo,
Isaías diz a Deus: “Tu escondeste a Tua face de nós e deixaste-nos à mercê do
poder dos nossos pecados”. Isto quer dizer que nós escondemos a nossa face
de Deus. Ao ver isto, a doce misericórdia da Palavra dá-nos um bálsamo: “nós o
barro, Tu o oleiro, somos todos obra das Tuas mãos.” Será que consegue sentir a
sensação de estar a ser restaurado à normalidade com estas palavras?
O evangelho para hoje, no início do
Advento, reforça isto com grande economia. Traz duas mensagens para nos
guiar na entrada para esta boa época da preparação do festival da Encarnação:
1. “não sabeis” e 2. “ficai despertos”. Ficar desperto numa condição de não
saber. É assim que nos preparamos para reconhecer e receber o que vem na nossa
direção à velocidade da luz. Esta velocidade significa que o que vem na nossa
direção já aqui está.
Laurence
Freeman OSB
Bonnevaux,
29 de Novembro de 2020
Voz masculina
Uma escritora do século XX que viveu num momento obscuro da história da humanidade, Etty
Hillesum, convida-nos, no seu Diário, a «reinventar a esperança» e a «olhar os lírios do campo». São tempos de levantarmos os nossos olhos e olhar para aquilo que é mais vasto, para aquilo que está fora de nós. No meio da dor e do sofrimento que nos invade somos convidados a velarmos uns pelos outros, a exercermos a nobre virtude da solidariedade.
No dia 5 de setembro de 1941, Etty escreve no seu Diário:
Voz feminina
«Preciso mesmo de me tornar mais simples. Deixar-me tornar um pouco mais viva, não querer ver imediatamente resultados na minha vida. O remédio sei-o agora; preciso é encolher-me num canto, no chão e, assim encolhida, escutar o que se passa dentro de mim. A pensar nunca resolvo o assunto. Pensar é uma enorme e bela ocupação quando se estuda, mas não é a pensar que uma pessoa consegue “sair” dos estados de alma difíceis. Nesse caso outra coisa tem de acontecer. É preciso saber tornar-se passivo, pôr-se à escuta e encontrar de novo o contacto com uma parcela da eternidade.»






















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